Close da parte superior do rosto de um belo jovem com olhos azuis.

Olho Seco Neurogênico: quando o problema está nos nervos, não na lágrima.

A Síndrome do Olho Seco (SOS) costuma ser associada à falta de lágrima ou à sua rápida evaporação. No entanto, existe uma forma mais complexa e sutil da doença: o Olho Seco Neurogênico ou Neuropático. 

Essa condição representa um paradigma na oftalmologia, pois o cerne do problema não está primariamente na produção ou qualidade da lágrima, mas numa disfunção dos nervos da superfície ocular que levam a uma falha na comunicação com o cérebro

Compreender essa relação entre disfunção neural e Síndrome do Olho Seco é fundamental para um diagnóstico preciso e um tratamento eficaz.

A fisiologia normal: um circuito de feedback sensível. 

Para perceber o Olho Seco Neurogênico, é essencial visualizar o ciclo lacrimal como um sistema de circuito fechado e inteligente. A córnea, a superfície frontal transparente do olho, é o tecido mais densamente inervado do corpo humano. Estes nervos, derivados do nervo trigêmeo, são extremamente sensíveis e têm duas funções principais:

  • Função Sensitiva: transmitem sensações de toque, temperatura e dor para o cérebro.
  • Função Trofoneural (de Nutrição): enviam sinais que regulam funções essenciais para a saúde ocular, incluindo o piscar, a produção de lágrima pela glândula lacrimal e a manutenção da integridade das células da superfície ocular.
Imagem gerada por AI de um globo ocular e suas enervações.  Conceito de olho seco neurogênico.

Quando a superfície ocular está intacta, os estímulos neurais mantêm uma produção basal de lágrima e componentes lubrificantes. Qualquer agressão (como vento ou poeira) é imediatamente detectada, e um sinal é enviado ao cérebro, que ordena um aumento da produção lacrimal para lavar e proteger o olho. É um sistema de autorregulação perfeito!

A origem do problema: a neuropatia corneal. 

O olho seco neurogênico ocorre quando há uma lesão ou disfunção nestes nervos corneanos extremamente sensíveis. Esta lesão nervosa é designada por neuropatia corneal. Sem uma inervação saudável, o circuito de feedback é interrompido. O cérebro deixa de receber informações corretas sobre o estado da superfície ocular.

O resultado é uma tríade de problemas:

  • Sinalização Sensorial Danificada: a glândula lacrimal não recebe o comando adequado para produzir lágrima. Paradoxalmente, o exame clínico pode mostrar um volume lacrimal aparentemente normal ou mesmo elevado (um reflexo inconsistente), mas a sua qualidade e a sua liberação no momento certo estão comprometidas. A lubrificação perde a sua inteligência.
  • Sintomas de Desconforto Desproporcionais: os pacientes frequentemente descrevem sensações intensas e debilitantes de ardor, picada, dor neuropática (como uma queimadura ou choque elétrico) e sensação de corpo estranho, que não correspondem aos sinais clínicos observados pelo médico durante o exame. Isto acontece porque os nervos, mesmo danificados, estão a enviar sinais de dor erráticos e exacerbados ao cérebro – um fenômeno chamado de “sensibilização central”.
  • Falha na Cicatrização e Homeostase: a função trofoneural dos nervos está comprometida. Estes nervos libertam substâncias (como o fator de crescimento neural) que são vitais para a saúde, renovação e cicatrização do epitélio corneal. Com a neuropatia, a superfície ocular torna-se frágil, propensa a lesões e de difícil recuperação.

Causas e diagnóstico do Olho Seco Neurogênico

As causas do Olho Seco Neurogênico são todas aquelas que podem danificar o nervo trigêmeo ou as suas terminações na córnea. As mais comuns incluem:

  • Cirurgia Ocular Refrativa (LASIK, PRK): a criação do flap corneal pode interromper nervos;
  • Uso Crónico de Colírios com Conservantes: o cloreto de benzalcônio é notoriamente neurotóxico;
  • Doenças Sistémicas: diabetes (neuropatia diabética), lúpus, síndrome de Sjögren; 
  • Infeções Virais: como herpes zoster oftálmico; 
  • Uso Prolongado de Lentes de Contacto.

O diagnóstico é clínico e requer um oftalmologista experiente. Envolve uma história detalhada, a avaliação dos sintomas (frequentemente utilizando questionários específicos) e o exame da superfície ocular. Exames especializados, como a estesiometria corneal (que mede a sensibilidade da córnea) e a microscopia confocal in vivo (que “fotografa” os nervos corneanos), podem confirmar a presença e a gravidade da neuropatia.

Abordagem terapêutica: para além da lubrificação. 

Tratar o olho seco neurogênico vai muito além de simplesmente lubrificar o olho. O objetivo principal é proteger a superfície ocular, modular a dor neuropática e, se possível, promover a regeneração nervosa.

Medicamentos dispostos sobre a escrivaninha na qual um médico faz uma prescrição.

O tratamento geralmente envolve:

  • Lubrificantes Avançados: colírios sem conservantes, géis e pomadas para a noite. Soro autólogo (feito do sangue do próprio paciente) é extremamente benéfico devido aos seus fatores de crescimento naturais.
  • Agentes Neuro-regeneradores e Protetores: substâncias como o Palmitato de Retinol e a Citicolina em colírios demonstraram promover a saúde e a recuperação do epitélio corneal e dos nervos.
  • Controle da Dor Neuropática: medicações sistêmicas, como gabapentina ou amitriptilina, podem ser prescritas em colaboração com um médico da dor para modular os sinais nervosos anormais.
  • Terapias de Estimulação Nervosa: dispositivos como o IPL (Luz Pulsada Intensa) e a TERS (Estimulação Elétrica Transcutânea do Nervo Supraorbital) mostram-se promissores ao modular a inflamação e estimular a via neural, melhorando os sintomas.

Em conclusão, o Olho Seco Neurogênico é uma condição crônica e complexa que exige uma abordagem personalizada e multidisciplinar. Reconhecer que a origem do sofrimento do paciente está num mau funcionamento do sistema nervoso é o primeiro e mais importante passo para aliviar uma dor que, embora invisível, é profundamente real e debilitante.

Sistema de Oftalmologia Integrada em Porto Alegre     

O Sistema de Oftalmologia Integrada, fundado em 16 de janeiro de 2012, é uma Rede de Clínicas voltada exclusivamente à saúde ocular da população.

Nosso esforço é voltado a prestar um atendimento integral baseado em quatro pilares: prevenção, diagnósticos precisos, tratamentos clínicos e cirúrgicos resolutivos.

Atualmente, a Oftalmologia Integrada atende em três grandes polos de saúde, Serra Gaúcha, Porto Alegre e Região Metropolitana, promovendo de modo sustentável e inovador a gestão de recursos na assistência oftalmológica.

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